
Uma imersão no complexo industrial da BYD em Zhengzhou revela uma escala sem precedentes, configurando-se como uma verdadeira metrópole dedicada à vanguarda da mobilidade elétrica. Estendendo-se por vastos 10,67 km², o equivalente a impressionantes 73 estádios do Maracanã, a planta industrial da BYD personifica não apenas grandiosidade em números, mas também uma audaciosa visão de futuro. Recentemente, mais de 250 jornalistas e influenciadores provenientes das Américas, Europa e África foram convidados a testemunhar de perto a magnitude da maior fábrica de veículos elétricos da China. O objetivo primordial, conforme declarado por Stella Li, vice-presidente executiva do grupo e líder das operações de vendas internacionais, era inequivocamente causar impacto e admiração.
Stella Li, figura de determinação e carisma, desempenha um papel fundamental na trajetória da BYD, tendo construído a empresa ao lado de seu marido, Wang Chuanfu, desde 1995. Atualmente, sua missão central é impulsionar a notoriedade global da marca, em um contexto onde as vendas domésticas enfrentam uma desaceleração e a concorrência no mercado chinês, com a presença de mais de 40 montadoras de veículos elétricos, atinge níveis acirrados.
O complexo de Zhengzhou, o principal centro produtivo da BYD voltado para o mercado interno, reflete o notável nível de integração vertical da empresa. Surpreendentemente, a BYD produz internamente 70% dos componentes de seus veículos, desde motores elétricos e eletrônicos de potência até baterias de alta performance, amortecedores, tetos solares e sofisticados sistemas de ar-condicionado. Toda essa produção é concentrada dentro dessa vasta “cidade industrial”, que abriga uma força de trabalho de 57 mil colaboradores.
As linhas de produção da BYD são notavelmente flexíveis, alcançando taxas de automação que superam os 98%. Além disso, a empresa implementa soluções patenteadas que permitem a montagem de até 12 modelos diferentes na mesma linha, utilizando cerca de 2.000 robôs de soldagem de última geração. Modelos como o Song Pro, Seal 07, Shark e Denza B8 são fabricados nesse complexo. A instalação também abriga o Power Battery Park, dedicado à produção da inovadora Blade Battery, reconhecida por sua segurança e alta densidade energética.
O silêncio predominante nas instalações impressiona os visitantes. Nos galpões de estamparia, as imponentes prensas são isoladas em cabines acústicas, e a presença de operadores humanos é mínima. Essa imagem sintetiza a essência do panorama industrial chinês: eficiência máxima e uma presença reduzida de mão de obra no chão de fábrica.
O setor automotivo chinês está passando por uma transformação sem precedentes. De 2009 a 2023, o governo chinês investiu mais de US$ 230 bilhões em subsídios para o desenvolvimento de veículos elétricos, de acordo com o Center for Strategic and International Studies. Como resultado, a China se tornou o maior exportador mundial de automóveis em 2023, superando o Japão, e hoje abriga 46 montadoras dedicadas à produção de carros elétricos, mais do que qualquer outro lugar no mundo.
Esses incentivos não apenas impulsionaram o consumo interno, com 31,4 milhões de carros vendidos em 2023, sendo 41% elétricos ou híbridos, mas também posicionaram a China como uma potência global na transição energética. O modelo chinês combina subvenções fiscais, mão de obra mais barata, tecnologia de ponta e um ecossistema robusto de baterias, fatores que permitiram reduzir preços e acelerar a adoção em massa. Por trás dessa expansão está um objetivo político e estratégico: conquistar o mercado global. Como apontam analistas, Pequim aceita sacrificar a lucratividade doméstica para dominar setores estratégicos.
A política industrial chinesa transformou a competição automotiva em um jogo de escala e eficiência, e os resultados já se refletem em mercados como Europa e América Latina. No centro desse fenômeno está a BYD, líder global em veículos elétricos e híbridos plug-in, que em 2024 ultrapassou a Tesla em volume de produção de elétricos puros. Fundada em 1994 como fabricante de baterias, a BYD é hoje uma multinacional presente em mais de 100 países e 400 cidades, com negócios que vão de energia limpa a transporte ferroviário.
A BYD avança agora para um novo patamar com a tecnologia Flash Charging, capaz de carregar um carro em cinco minutos, tempo comparável ao abastecimento em um posto de combustível. O sistema entrega 1 megawatt de potência e garante 400 km de autonomia com uma carga ultrarrápida. O primeiro modelo a receber a inovação foi o Han L, lançado este ano na China. A empresa já iniciou a instalação dos carregadores no país e promete exportar a tecnologia em breve: de 6.000 carregadores, 800 devem vir em breve para o Brasil.
A aposta global da BYD se estende também à América do Sul. Em outubro de 2025, com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a montadora inaugurou oficialmente a produção nacional de veículos em Camaçari (BA). O investimento de R$ 5,5 bilhões deve gerar 20 mil empregos diretos e indiretos e posicionar o Brasil como plataforma de exportação para toda a região. A meta inicial era fabricar 300 mil veículos por ano até 2030, mas o novo plano prevê 600 mil unidades anuais e o objetivo de colocar a BYD entre as três maiores montadoras do país.
Com tecnologia, escala e ambição, a empresa chinesa transforma o mercado automotivo brasileiro, e confirma que a nova corrida global da mobilidade elétrica tem um endereço certo: a China.




