A série ‘The Pitt’ destaca-se pelo realismo ao retratar o dia a dia de um pronto-socorro, abordando desafios médicos, a saúde mental dos profissionais e o papel crucial dos assistentes sociais, conquistando tanto especialistas quanto o público em geral.

A nova série médica “The Pitt”, disponível na Max, diferencia-se de outras produções do gênero, como “ER”, “Grey’s Anatomy”, “The Good Doctor”, “House” e a nacional “Sob Pressão”, pela sua abordagem realista do cotidiano de um pronto-socorro. Cada episódio simula uma hora dentro da emergência do Pittsburgh Medical Trauma Center, gerando grande identificação entre profissionais da saúde, especialmente nos Estados Unidos, e conquistando também o público brasileiro.
Adriano Vendimiatti Cardoso, o Dr. Derrame nas redes sociais, cirurgião geral, clínico geral e médico de emergência, atuante na rede pública em UPA e hospital municipal, destaca a precisão técnica da série: “Apesar de pequenos desvios narrativos, a pesquisa técnica é bem-feita. O programa busca o realismo sem comparação com as demais, tornando-a autêntica para os espectadores, incluindo os médicos”. Ele ressalta que “ER”, com Noah Wyle (agora protagonista de “The Pitt”), foi crucial para o realismo em dramas médicos, influenciando programas focados em paramédicos e emergências. Diferente das sitcoms hospitalares do passado, “The Pitt” equilibra técnicas médicas, elementos humanos e mensagens de saúde pública, como a importância da vacinação.
Cardoso aponta que a maioria dos procedimentos é retratada com precisão, embora a narrativa, em alguns momentos, prevaleça sobre o realismo absoluto, como em casos de pacientes intubados e conscientes. Expedito Bezerra Barbosa Júnior, médico de urgência e emergência pediátrica, complementa que as necessidades dramáticas da série podem acelerar eventos em comparação com a realidade. “Os diagnósticos rápidos mostrados em ‘The Pitt’, muitas vezes, não são viáveis por exigirem equipamentos como raio-X e tomografia computadorizada, dificultando, inclusive, o tratamento.” Barbosa Júnior também menciona a sobrecarga de trabalho dos profissionais médicos, que lidam com casos complexos e urgentes sob pressão. “Já atendi 80 pacientes em um único plantão, isso representa 7 minutos por atendimento. Esta pesada carga de trabalho limita a capacidade de fornecer cuidados abrangentes.” Essa realidade, segundo ele, é um desafio constante para a equipe médica.
Cardoso enfatiza as diferenças entre os sistemas de emergência dos EUA e do Brasil, notáveis na série. Nos EUA, a admissão de pacientes envolve formulários autopreenchidos, e a avaliação inicial é baseada em protocolos, incluindo ECG e exames de sangue para dor no peito, antes da avaliação médica. Além disso, os prontos-socorros americanos focam em emergências, separando-se das clínicas de consulta, ao contrário do Brasil, onde o contato direto com médicos para questões não urgentes é mais comum.
A série aborda o risco de burnout entre médicos devido ao trabalho exigente e a forma como lidam com a morte, erros e falhas. Barbosa Júnior destaca a carência de apoio psicológico institucional para médicos em hospitais brasileiros. “Eu tive alopecia areata devido ao estresse após uma emergência pediátrica, na qual tive que intubar uma criança, no início da minha carreira. Ela ficou bem depois”, revela. A pandemia de Covid-19 também causou traumas psicológicos, levando ao TEPT em muitos profissionais de saúde.
No entanto, Cardoso observa que a pandemia trouxe melhorias na organização e nos protocolos de atendimento de emergência em alguns locais do Brasil. A série também destaca o papel dos assistentes sociais, representados por uma personagem que lidera os esforços para informar as famílias das vítimas. Thaysa Mariá da Silva Magalhães, assistente social e coordenadora do Serviço Social do HEDH, ressalta que a atuação do assistente social na emergência é dinâmica, rápida e sensível, em articulação com a equipe, para acolher familiares, orientar sobre processos e prestar suporte diante de situações críticas. Aline Antônia Araújo Pugliesi, assistente social chefe de saúde do Hospital Emílio Ribas, complementa que o trabalho do assistente social em hospitais é essencial para que o paciente não seja visto apenas pela sua condição clínica, mas como um ser humano inserido em um contexto social. As demandas vão do momento da internação e muito além da desospitalização, para dar continuidade aos tratamentos ou aos cuidados paliativos, para a garantia do acesso aos direitos e viabilização de recursos. É por essa inserção de tema e outros motivos que “The Pitt” se tornou a nova queridinha de quem gosta de séries sobre plantão médico.
A primeira temporada de “The Pitt” já encerrou, mas a segunda temporada é aguardada para janeiro de 2026.



