A autora Lisa Jewell discute a crescente influência dos grupos incels entre os jovens, destacando a necessidade de os pais estarem atentos aos conteúdos online que seus filhos consomem. Ela compartilha suas experiências pessoais e profissionais, revelando como a misoginia e o abuso a inspiraram a criar thrillers que exploram as dinâmicas de poder entre homens e mulheres.

A ficção contemporânea tem explorado cada vez mais o fenômeno dos incels, grupos de homens que nutrem ódio contra mulheres. Um exemplo notável é a série ‘Adolescência’ da Netflix, que alcançou mais de 60 milhões de espectadores em uma semana, mergulhando em temas de misoginia. Paralelamente, a obra ‘Garota Invisível’ de Lisa Jewell, publicada pela Intrínseca, chega ao Brasil, também abordando esse universo perturbador.
Na trama, uma jovem que enfrenta as consequências de traumas passados recebe alta de seu terapeuta, mas desenvolve comportamentos obsessivos, chegando a stalkear o profissional. Essa perseguição a leva a desenterrar segredos sombrios sobre a vida do terapeuta, culminando em seu misterioso desaparecimento. Lisa Jewell revela que, quando iniciou a pesquisa para o livro, em 2020, o debate sobre o movimento incel era incipiente. Seu objetivo inicial nem era focar nesse grupo, mas sim o comportamento dos personagens que a guiou para essa direção.
Em entrevista exclusiva, Jewell explicou: ‘Eu queria criar um personagem masculino que irradiasse desconforto nas mulheres, que cruzasse limites e se comportasse de maneira inadequada. Durante o processo de construção desse personagem, decidi explorar até onde poderia levá-lo, e foi aí que me deparei com o mundo dos incels’.
A autora compartilhou detalhes sobre seu processo criativo, suas inspirações, que incluem um casamento abusivo e uma ameaça de estupro sofrida por sua filha na escola. Embora sua obra seja ficcional, a vida real fornece material vasto e complexo.
Questionada sobre a pesquisa para retratar os fóruns incels, Lisa Jewell admitiu ter se baseado principalmente em fontes secundárias. Um artigo impactante do ‘The New Yorker’, intitulado ‘The Rage of Incels’, escrito por Jia Tolentino, foi fundamental. A jornalista se infiltrou nos fóruns sob disfarce e relatou experiências perturbadoras. Jewell também assistiu a documentários sobre o tema. Ela expressou alívio por não ter precisado se aprofundar diretamente nesses grupos, pois temia o impacto psicológico.
Como mãe de filhas, Lisa Jewell compartilha suas preocupações sobre os perigos que as jovens enfrentam no mundo atual. Ela relata um episódio alarmante em que sua filha, então em uma escola mista, foi ameaçada de estupro por um grupo de garotos. Esse incidente a fez perceber que a ameaça não se restringe apenas aos membros de grupos incels, mas pode estar presente em jovens aparentemente comuns.
Jewell lamenta a persistência da misoginia e a falta de progresso na erradicação desse problema. Ela observa que, enquanto sua geração se esforçava para agradar e evitar confrontos, suas filhas são mais assertivas e conscientes de seu valor. No entanto, ela reconhece que essa postura mais forte é essencial para enfrentar um mundo ainda permeado por desigualdade e violência de gênero.
A autora revela que suas experiências pessoais, incluindo um casamento abusivo, servem de inspiração para seus livros. Ela explora temas como manipulação, controle e coerção, buscando entender as dinâmicas complexas entre homens e mulheres. Através de suas histórias, Jewell busca respostas para suas próprias vivências e questiona os motivos por trás do comportamento abusivo.
Lisa Jewell expressa preocupação com o aumento da participação de jovens em fóruns incels, onde disseminam ódio e planejam atos de violência contra mulheres. Ela acredita que a falta de controle e o sentimento de perda de poder por parte dos homens contribuem para essa regressão. A autora enfatiza a importância de os pais monitorarem o conteúdo que seus filhos consomem online, incluindo pornografia, jogos violentos e discussões extremistas.
Apesar de lidar com temas sombrios em seus livros, Lisa Jewell afirma que não perde o sono com suas histórias. Ela se sente fascinada pela capacidade humana de praticar o mal e busca entender as motivações por trás de comportamentos distorcidos. Seu objetivo é compartilhar essa compreensão com os leitores, convidando-os a enxergar o mundo sob uma nova perspectiva.



