Golpes em anúncios patrocinados no Instagram causam prejuízos aos usuários, com lojas que somem após a compra. A Meta e o Judiciário debatem responsabilidades, enquanto especialistas dão dicas de prevenção e ação para as vítimas.
Usuários do Instagram estão sendo cada vez mais afetados por esquemas fraudulentos que se disfarçam de publicações patrocinadas. A tática é simples, porém eficaz: anúncios de produtos atraentes invadem os feeds dos usuários, redirecionando-os para sites aparentemente legítimos, onde efetuam a compra, mas nunca recebem os produtos. Pouco tempo depois, as lojas virtuais desaparecem, deixando os consumidores no prejuízo.
Como o golpe acontece:
Golpistas habilidosos replicam perfis de lojas autênticas, utilizando o mesmo nome, logotipo e até mesmo as publicações originais. Em seguida, impulsionam esses posts como anúncios patrocinados, ampliando seu alcance e confundindo os usuários, que acreditam estar comprando de uma loja confiável ou são atraídos por preços excessivamente baixos. A vítima, ao clicar no anúncio, é direcionada a uma página falsa, onde insere seus dados pessoais e bancários, concretizando o golpe.
Carla*, de 48 anos, é uma das vítimas. Atraída por um anúncio de jogos de cama de uma loja conhecida, ela realizou a compra, mas nunca recebeu o produto. Pouco depois, recebeu uma mensagem supostamente dos Correios, solicitando um pagamento adicional para liberar a entrega, o que a alertou para o golpe. O prejuízo de R$ 120 não foi recuperado. Pedro*, de 37 anos, teve mais sorte e conseguiu cancelar a compra após suspeitar da autenticidade do site, notando que as seções ‘sobre’ e ‘contato’ continham apenas texto, sem links funcionais.
O Reclame Aqui está repleto de relatos de vítimas de publicações patrocinadas fraudulentas. Um usuário descreveu a experiência de efetuar um pagamento via Pix e, em seguida, ser solicitado a pagar uma taxa de entrega adicional. Após realizar o segundo pagamento, o vendedor desapareceu, sem entregar o produto e sem responder às mensagens. A vítima constatou que o perfil era falso, com comentários comprados e informações enganosas.
A Meta se pronuncia:
Uma análise interna da Meta revelou que 70% dos novos anunciantes promovem ‘golpes, produtos ilícitos ou de baixa qualidade’. A empresa afirma que atividades que visam enganar, fraudar ou explorar terceiros não são permitidas em suas plataformas e que aprimora constantemente sua tecnologia para combater atividades suspeitas. A Meta também recomenda que os usuários denunciem conteúdos que violem os Padrões da Comunidade do Facebook, as Diretrizes da Comunidade do Instagram e os Padrões de Publicidade da Meta.
Em abril, a Meta foi alvo de um processo da AGU (Advocacia-Geral da União), acusada de enriquecer com anúncios falsos que utilizam propriedades do governo. Foram identificados pelo menos 1.770 anúncios fraudulentos com o objetivo de aplicar golpes financeiros. O problema não se restringe à Meta; o aplicativo Kwai também tem sido utilizado por golpistas para impulsionar publicações fraudulentas.
Debate no Judiciário:
A dificuldade em identificar os fraudadores é um dos principais desafios enfrentados pelas vítimas. Lucas Marcon, advogado do programa de Telecomunicações e Direitos Digitais do Idec (Instituto de Defesa de Consumidores), explica que o mecanismo de aplicação desse tipo de golpe dificulta a localização do responsável pela fraude, que pode responder pelos crimes de estelionato e lesão de patrimônio. O STF (Supremo Tribunal Federal) discute a validade do artigo 19 do Marco Civil da Internet, que estabelece que as plataformas só podem ser punidas caso desobedeçam uma ordem judicial de remoção de conteúdo. No entanto, o julgamento ainda está em andamento e pode levar à responsabilização das plataformas.
Como se prevenir:
- Não se baseie apenas no número de seguidores da página.
- Verifique se há outro perfil com o mesmo nome nas redes sociais.
- Procure por reclamações na internet sobre a loja em questão.
- Cheque se os comentários estão desativados ou se os perfis que comentam nas publicações são de pessoas reais.
O que fazer se for vítima:
- Registre tudo: página da empresa clonada, site, dados da conta bancária destinatária e comprovante de pagamento.
- Faça um boletim de ocorrência.
- Entre em contato com o seu banco e o canal de atendimento ao consumidor, como o Procon.
- Se o pagamento foi via Pix, tente utilizar o MED (Mecanismo Especial de Devolução).
É fundamental que os consumidores desconfiem de anúncios excessivamente vantajosos e verifiquem a reputação das lojas antes de efetuar qualquer compra. Enquanto as plataformas não reforçarem a fiscalização dos perfis e conteúdos patrocinados, a desconfiança continua sendo a maior aliada do consumidor.
*Nomes alterados a pedido dos entrevistados.




