O Brasil enfrenta a ameaça de novas taxas dos EUA sobre fertilizantes russos, seu principal fornecedor, o que pode afetar a produção de alimentos e aumentar os custos para agricultores e consumidores.

Créditos: G1
O cenário do agronegócio brasileiro enfrenta uma nova onda de incertezas com a possibilidade de os Estados Unidos imporem tarifas adicionais sobre a importação de fertilizantes russos. A medida, motivada por preocupações geopolíticas e econômicas, coloca em xeque a dependência do Brasil em relação ao fornecimento externo de insumos essenciais para a produção agrícola.
Fertilizantes químicos, amplamente utilizados na agricultura como adubo para preparar e estimular o solo para o plantio, tornaram-se um ponto crítico na balança comercial e nas relações internacionais. A imposição de tarifas adicionais pode elevar os custos de produção, impactando diretamente o bolso do agricultor e, consequentemente, o preço dos alimentos para o consumidor final.
A recente ação do governo americano, que aplicou uma tarifa adicional à Índia por comprar petróleo da Rússia, serve como um alerta para o Brasil. A justificativa para a taxação indiana, de que a compra contribui para a manutenção da guerra na Ucrânia, ecoa preocupações semelhantes em relação ao comércio de fertilizantes.
Com a nova tarifa, a taxa total aplicada à Índia atingiu 50%, igualando-se à do Brasil e colocando ambos os países entre os mais taxados pelos Estados Unidos. A declaração de que mais tarifas podem ser impostas aumenta a apreensão no setor agrícola brasileiro, que já enfrenta desafios como a alta dos custos de produção e a instabilidade climática.
Carlos Cogo, consultor especializado no setor, adverte que a dependência brasileira da importação de fertilizantes torna o país vulnerável a esses tipos de aumento de custos. Ele ressalta que a produção de alimentos no Brasil pode ser significativamente afetada, com um aumento nos custos tanto para o agricultor quanto para o consumidor.
A dependência do Brasil em relação aos fertilizantes russos é um tema complexo que envolve diversos fatores. Entre os principais motivos que explicam essa dependência, destacam-se:
- Escassez de matérias-primas: O Brasil não possui reservas significativas de componentes essenciais para a produção de fertilizantes, como nitrogênio e potássio. O potássio, por exemplo, está concentrado em países como Canadá, Rússia e Bielorrússia, que dominam o mercado mundial.
- Indústria nacional limitada: A indústria nacional de nitrogenados é pequena devido à necessidade de gás natural barato para a produção, o que a torna menos competitiva em comparação com países como EUA, Rússia e Catar. No caso do fosfato, as reservas brasileiras são de qualidade inferior e mais caras de explorar.
- Alta demanda: A produção nacional não consegue suprir toda a demanda da agricultura brasileira por fertilizantes. Apesar de ser um grande produtor de alimentos, o Brasil possui solos pobres em nutrientes, necessitando de adubação frequente para manter a produtividade.
- Custos elevados: A importação de fertilizantes muitas vezes se torna mais vantajosa devido aos altos custos logísticos e à infraestrutura limitada no Brasil.
O governo brasileiro tem buscado alternativas para reduzir a dependência de fertilizantes importados. O Plano Nacional de Fertilizantes, criado em 2022, tem como meta produzir entre 45% e 50% do insumo consumido no país até 2050. Para isso, o governo pretende investir mais de R$ 25 bilhões até 2030, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária. No entanto, o consultor Cogo ressalta que são necessários grandes investimentos, incentivos e infraestrutura para aumentar a produção nacional de forma significativa.
A Rússia é um dos principais players no mercado global de fertilizantes, sendo o 2° maior produtor mundial de fertilizantes potássicos e nitrogenados e o 4° maior de fosfatados. Em 2024, o país foi o principal fornecedor desses insumos para o Brasil. A dependência do Brasil em relação aos fertilizantes russos é um fator de vulnerabilidade, especialmente em um cenário de instabilidade geopolítica e sanções econômicas.
A substituição da Rússia como fornecedor de fertilizantes para o Brasil não seria uma tarefa fácil. Seria necessário reestruturar a logística de compras, realizar negociações diplomáticas para fechar novos acordos e abrir mercados. Entre as alternativas possíveis, o Brasil poderia ampliar parcerias com Canadá, Marrocos, Nigéria e outros países do Oriente Médio. No entanto, outros países também buscam evitar sanções e podem disputar os mesmos fornecedores, o que torna o cenário ainda mais desafiador.
O Brasil é o 4° maior consumidor de fertilizantes do mundo, devido à pobreza natural dos solos em nutrientes, principalmente no Cerrado. A região possui baixa disponibilidade de elementos essenciais como fósforo e potássio, além de alta acidez. O clima tropical, com chuvas intensas, também contribui para a lixiviação, processo em que os nutrientes são rapidamente perdidos do solo. A agricultura intensiva, com várias safras por ano, exige reposição constante de nutrientes, aumentando a necessidade de fertilizantes. Culturas voltadas para a exportação, como soja, milho, cana-de-açúcar, café e algodão, demandam grandes volumes de adubos químicos para manter a produtividade.



