Exames de biomarcadores auxiliam na detecção precoce do Alzheimer, identificando proteínas associadas à doença antes dos sintomas. Especialistas alertam para uso criterioso, enfatizando que o exame deve ter função clínica real e não ser usado por curiosidade. Os tratamentos atuais são limitados, com medicamentos que atrasam o declínio cognitivo, mas não curam a doença, exigindo decisão conjunta entre médico, paciente e família. Projeto de lei busca incluir exame de sangue no SUS, ampliando o acesso ao diagnóstico precoce.

A busca por métodos eficazes na detecção precoce da Doença de Alzheimer tem ganhado destaque no campo da neurologia. Os biomarcadores, substâncias detectáveis no organismo, emergem como ferramentas promissoras para identificar a presença da doença em estágios iniciais, antes mesmo dos sintomas clínicos mais evidentes, como a perda de memória, se manifestarem. Esses biomarcadores, que incluem proteínas como a amiloide e a tau, podem ser detectados através de diferentes métodos, desde exames de imagem cerebral avançados (PET scan) até análises do líquido cefalorraquidiano (punção lombar) e, mais recentemente, por meio de exames de sangue. A identificação dessas proteínas oferece uma janela para compreender a progressão da doença e, potencialmente, intervir de forma mais eficaz.
Contudo, especialistas alertam para a importância de utilizar os biomarcadores com critério e responsabilidade. O neurologista Tharick Pascoal, da Universidade de Pittsburgh, enfatiza que a detecção dessas proteínas não é um indicativo absoluto de que a doença irá se manifestar. Ele ressalta que os biomarcadores devem ser considerados principalmente em situações onde o resultado possa influenciar diretamente o tratamento ou o prognóstico do paciente, ou quando fornecer informações relevantes para a família, como o risco hereditário da doença. O uso indiscriminado de exames de biomarcadores, especialmente em indivíduos assintomáticos, pode gerar ansiedade e preocupações desnecessárias. Norberto Anízio Ferreira Frota, da Universidade de Fortaleza, compartilha essa preocupação, destacando que a facilidade de acesso aos exames de sangue tem aumentado a demanda por parte de pessoas que buscam apenas tranquilizar seus medos, o que não justifica a realização do teste.
Apesar dos avanços promissores, é crucial reconhecer que os tratamentos disponíveis atualmente para o Alzheimer são limitados. Medicamentos como lecanemabe e donanemabe, aprovados pela FDA, atuam sobre a placa amiloide e demonstraram um modesto atraso no declínio cognitivo, mas não curam a doença. Além disso, esses tratamentos podem apresentar efeitos colaterais significativos e custos elevados, o que exige uma avaliação cuidadosa dos benefícios e riscos envolvidos.
A decisão de realizar o exame de biomarcadores e iniciar o tratamento deve ser tomada em conjunto com o paciente e a família, com total transparência sobre as limitações e expectativas realistas. A medicina de precisão, que busca terapias personalizadas para cada indivíduo, representa um futuro promissor no tratamento do Alzheimer, mas ainda há um longo caminho a percorrer.
Um projeto de lei em análise na Câmara dos Deputados propõe a inclusão do exame de sangue PrecivityAD no SUS, o que poderia ampliar o acesso ao diagnóstico precoce do Alzheimer, especialmente em regiões com menos recursos. No entanto, é fundamental que essa iniciativa seja acompanhada de orientações claras e responsáveis sobre o uso adequado dos biomarcadores, evitando falsas esperanças e garantindo que os pacientes recebam o suporte necessário para lidar com os resultados dos exames.
Em suma, os biomarcadores representam um avanço significativo na detecção precoce do Alzheimer, mas seu uso deve ser criterioso, considerando os benefícios, riscos e limitações dos tratamentos disponíveis. A informação transparente e o diálogo aberto entre médicos, pacientes e familiares são essenciais para garantir que essa tecnologia seja utilizada de forma ética e responsável, em benefício da saúde e bem-estar de todos.




