
Uma onda criativa varreu as plataformas digitais recentemente. Usuários de todo o mundo começaram a compartilhar imagens com uma estética que remete aos icônicos animes do Studio Ghibli. Através de um filtro de inteligência artificial, fotos cotidianas – selfies, paisagens, retratos de figuras públicas – eram transformadas, ganhando a paleta de cores vibrantes, os traços delicados e o toque nostálgico característicos das animações de Hayao Miyazaki.
O que começou como uma simples brincadeira viral logo se transformou em um fenômeno global, com pessoas maravilhadas com a possibilidade de verem suas vidas reimaginadas no estilo de clássicos como ‘A Viagem de Chihiro’ ou ‘Meu Amigo Totoro’. No entanto, por trás dessa tendência aparentemente inofensiva, emergem discussões cruciais sobre o futuro da criatividade, a aplicabilidade das leis de direitos autorais e o potencial transformador da inteligência artificial na arte. O segredo por trás desses filtros reside na capacidade aprimorada do ChatGPT de interpretar e reconstruir imagens a partir de comandos simples. O prompt que instrui a transformação da foto no estilo Ghibli foi o catalisador da viralização, mas as capacidades do ChatGPT vão além, permitindo a alteração consistente de imagens e a inserção de texto, um desafio superado pela ferramenta.
Essa democratização da criação permite que indivíduos sem habilidades artísticas formais experimentem o prazer de criar ilustrações. Contudo, essa experiência de “artista por um dia” pode ser ilusória, já que as decisões artísticas são, em grande parte, tomadas pela máquina, a partir de um comando genérico.
Embora a acessibilidade a ferramentas como essa possa impulsionar a criatividade, é fundamental analisar como a legislação aborda as questões levantadas por essa transformação radical no processo de criação intelectual. No Brasil e em diversos outros países, o estilo artístico não é protegido por direitos autorais, apenas as obras específicas. Isso significa que a exclusividade sobre traços suaves, paletas de cores específicas ou personagens com características marcantes não pode ser reivindicada. A proteção legal se estende às obras em si, como ‘Princesa Mononoke’, e não ao estilo ou à ideia que as originou.
Para replicar o estilo do Studio Ghibli com precisão, a IA necessita de treinamento, através da análise de um conjunto de dados composto por obras preexistentes do estúdio, como frames de filmes e ilustrações. No Japão, debate-se a viabilidade de estabelecer uma exceção aos direitos autorais para permitir o uso de obras no treinamento de IAs, desde que os resultados não concorram diretamente com as criações originais.
No entanto, questiona-se se a disseminação de imagens no estilo Ghibli, que não foram produzidas pelo estúdio, pode impactar as obras originais. Alguns argumentam que essa exposição aumentou a popularidade do estúdio, mas será que as leis devem aguardar os resultados do uso das obras para determinar a ação apropriada? A popularização das imagens no estilo Ghibli pode ser efêmera, mas serve como catalisador para discussões sobre o futuro da criatividade. Há quem celebre a democratização das ferramentas de criação, enquanto artistas e detentores de direitos autorais argumentam que o uso não autorizado de obras para treinar IAs configura uma violação disfarçada de inovação.
As respostas para essas questões complexas podem demorar a surgir, e a falta de reflexão sobre o uso dessas ferramentas pode nos levar a trocar a análise aprofundada pela participação na próxima tendência viral. É crucial promover esse debate agora, utilizando o caso do filtro Ghibli como ponto de partida para imaginar o futuro da criação artística. Como ‘A Viagem de Chihiro’ nos ensina, as respostas mais importantes podem ser encontradas em jornadas inesperadas.