Pesquisadores encontram o vírus da hepatite C no cérebro de pacientes com esquizofrenia, transtorno bipolar e depressão maior, sugerindo uma possível ligação entre a infecção e o desenvolvimento desses distúrbios. O estudo abre novas perspectivas para o tratamento dessas condições.

Uma pesquisa inovadora, conduzida por cientistas da Universidade Johns Hopkins e do The Stanley Medical Research Institute nos Estados Unidos, revelou a presença do vírus da hepatite C no cérebro de indivíduos diagnosticados com esquizofrenia, transtorno depressivo maior e transtorno bipolar. Este achado inédito sugere uma possível ligação entre a infecção pelo vírus e o desenvolvimento desses distúrbios mentais, abrindo novas avenidas para a compreensão e o tratamento dessas condições.
Os resultados do estudo foram divulgados em 14 de julho na renomada publicação científica Translational Psychiatry. A equipe de pesquisa investigou amostras de RNA extraídas do plexo coroide, uma estrutura cerebral responsável pela produção do líquido cefalorraquidiano. As amostras foram coletadas de 256 indivíduos falecidos, cujos materiais foram doados ao The Stanley Medical Research Institute. O grupo de estudo incluiu 76 indivíduos sem histórico de transtornos mentais, 73 pacientes com transtorno bipolar, 84 com esquizofrenia e 23 com depressão maior.
A escolha do plexo coroide como foco da pesquisa se deveu à ausência de evidências de infecções virais em outros tecidos cerebrais em estudos anteriores, bem como à sua potencial relação com o desenvolvimento de transtornos mentais. Os cientistas acreditavam que o plexo coroide poderia ser mais suscetível a infecções virais, conforme detalhado em um comunicado à imprensa divulgado pela Universidade Johns Hopkins.
Para identificar infecções virais, os pesquisadores utilizaram uma tecnologia de sequenciamento abrangente, o Twist Comprehensive Viral Research Panel, capaz de detectar mais de 3.000 vírus em amostras humanas. Os resultados revelaram uma maior prevalência de vírus nas amostras de pacientes com esquizofrenia e transtorno bipolar em comparação com aqueles sem transtornos ou com depressão. Surpreendentemente, o vírus da hepatite C foi encontrado exclusivamente no tecido cerebral de pacientes com esquizofrenia e transtorno bipolar.
É importante ressaltar que o vírus não foi detectado no tecido cerebral de todos os pacientes com histórico de hepatite C crônica. Isso sugere que a infecção pelo vírus nem sempre resulta em sua presença nas membranas cerebrais. Em uma etapa subsequente do estudo, a equipe analisou dados médicos eletrônicos de 285 milhões de pacientes do banco de dados TriNetX. Os resultados indicaram uma prevalência de infecção pelo vírus da hepatite C de 3,6% em pacientes com esquizofrenia e 3,9% em pacientes com transtorno bipolar, quase o dobro da taxa observada em pacientes com depressão maior (1,8%) e sete vezes maior do que na população em geral (0,5%).
Os pesquisadores argumentam que a presença do vírus não pode ser atribuída exclusivamente aos comportamentos de risco associados aos transtornos mentais, mas sim a uma possível ligação causal. Embora o uso de drogas ilícitas seja comum entre pessoas com os três transtornos, essa prática não explicaria a maior prevalência do vírus em pacientes com transtorno bipolar e esquizofrenia em comparação com aqueles com depressão.
Ao sequenciar o RNA do hipocampo, uma região cerebral crucial para o aprendizado e a memória, em indivíduos infectados pelo vírus, os cientistas observaram que o vírus não estava presente nesse tecido, embora fosse detectado nas meninges (membranas) cerebrais. No entanto, a presença do vírus nas meninges alterou a expressão de genes no hipocampo, sugerindo um possível mecanismo pelo qual a infecção das meninges pode afetar as funções cerebrais e o comportamento.
Os cientistas enfatizam que o estudo não implica que todos os pacientes com esquizofrenia ou transtorno bipolar estejam infectados pelo vírus da hepatite C. No entanto, os achados apontam para uma possível causa subjacente dos sintomas. Sarven Sabunciyan, líder da pesquisa e neurocientista da Universidade Johns Hopkins, declarou que as descobertas demonstram a possibilidade de que alguns indivíduos apresentem sintomas psiquiátricos devido a uma infecção, e que, como a hepatite C é tratável, esses pacientes poderiam se beneficiar de terapias antivirais.
A equipe de Sabunciyan planeja agora colaborar com profissionais de saúde mental para testar pacientes com transtorno bipolar e esquizofrenia para o vírus. O objetivo é acompanhar esses pacientes e avaliar se o tratamento contra a hepatite C, uma doença que afeta principalmente o fígado, pode aliviar ou eliminar os sintomas psiquiátricos. Esta pesquisa representa um avanço significativo na compreensão da complexa relação entre infecções virais e transtornos mentais, com o potencial de transformar o tratamento dessas condições no futuro.



