A jornalista Adriana Araújo luta para garantir que sua filha, uma médica com deficiência, tenha acesso a luvas adequadas para exercer sua profissão com segurança e dignidade, após a fábrica responsável pela produção das luvas personalizadas encerrar a fabricação de suprimentos médicos. A história de Giovanna é um exemplo de superação e inclusão, mas também expõe a falta de apoio a profissionais de saúde com deficiência.

A jornalista Adriana Araújo, renomada âncora do Jornal da Band, tem dedicado os últimos 27 anos de sua vida à causa da inclusão, inspirada pela trajetória de sua filha, Giovanna Araújo, que nasceu com hemimelia fibular. Essa condição congênita rara se manifesta pela ausência parcial ou total da fíbula, um dos ossos cruciais da perna. Adicionalmente, Giovanna possui apenas dois dedos em sua mão direita. A jornada de Giovanna, hoje com 27 anos, foi repleta de desafios, mas sua determinação e o apoio incondicional de sua mãe a impulsionaram a acreditar em seu potencial máximo.
A deficiência nunca se tornou uma barreira intransponível para Giovanna, embora dez intervenções cirúrgicas tenham sido necessárias para que ela pudesse caminhar sem auxílio e desenvolver habilidades manuais. A história de Adriana e Giovanna é um testemunho de resiliência e amor, um farol de esperança para outras famílias que enfrentam desafios semelhantes.
Em 2018, Giovanna ingressou no curso de medicina na UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), um sonho acalentado desde a adolescência. No entanto, durante sua formação, mãe e filha se depararam com um obstáculo inesperado: a inexistência de luvas médicas adequadas para profissionais com deficiência nas mãos. Adriana, incansável, iniciou uma busca exaustiva por fabricantes no Brasil e no exterior, transformando a necessidade da filha em uma causa pessoal e coletiva, estendendo a mão a outros jovens médicos que enfrentavam a mesma dificuldade.
Recentemente, a família recebeu a notícia de que a fábrica responsável pela produção das luvas personalizadas encerrou a fabricação de suprimentos médicos, deixando Giovanna e outros nove jovens médicos em uma situação delicada, com um estoque limitado de luvas e sem perspectiva de solução imediata. A situação expõe a fragilidade do sistema de apoio a profissionais de saúde com deficiência e a urgência de políticas públicas que garantam a inclusão e a acessibilidade no ambiente de trabalho.
Giovanna nasceu em Belo Horizonte, em outubro de 1997. Ainda durante a gravidez, Adriana soube que a filha nasceria com uma deficiência física. Os exames de ultrassom da época, menos avançados do que os atuais, revelaram gradualmente a condição de Giovanna. Adriana, então repórter do Jornal Nacional, da TV Globo, buscou orientação médica e encontrou no ortopedista César Luiz Andrade um aliado fundamental. O médico acompanhou Giovanna desde os primeiros dias de vida, realizando as primeiras cirurgias e oferecendo apoio emocional à família.
Apesar da confiança em Dr. César, Adriana sentiu-se pressionada a buscar uma segunda opinião. A experiência, no entanto, foi traumática. Outro especialista, ao ver Giovanna usando um aparelho ortopédico, sugeriu a amputação como solução mais fácil. A sugestão cruel abalou Adriana, que decidiu manter-se fiel ao Dr. César, que preparou Giovanna para as cirurgias de alongamento ósseo e a encaminhou ao ortopedista Amâncio Ramalho Júnior, que se tornou outro ‘anjo de jaleco’ na vida da família. Graças às cirurgias, Giovanna superou a diferença de 15 centímetros entre as pernas e conquistou sua independência.
Adriana relata que o preconceito é uma constante na vida de uma mãe de filho com deficiência. Frases maldosas e agressivas são proferidas diariamente, exigindo que a mãe se torne um escudo protetor para a criança, preparando-a para enfrentar o mundo e defender sua autoestima. A jornada de Giovanna rumo à medicina foi também uma jornada de aceitação e empoderamento. Adriana sempre incentivou a filha a acreditar em seu potencial, a tentar tudo o que desejasse, mostrando que a deficiência não era um motivo para ser desrespeitada ou menos amada.
A decisão de Giovanna de cursar medicina surpreendeu Adriana, que imaginava que a filha teria aversão a hospitais após tantas cirurgias e dores. No entanto, Giovanna revelou que foi justamente a experiência como paciente que a motivou a seguir a profissão, inspirada pela importância dos médicos em sua trajetória. A falta de luvas adequadas tornou-se um novo desafio a ser superado. Giovanna, apesar de suas habilidades manuais, necessita de luvas médicas para sua segurança e a de seus pacientes, assim como qualquer outro profissional de saúde.
Após inúmeras negativas, Adriana encontrou uma fábrica em São Roque (SP) que se sensibilizou com a causa e iniciou a produção de luvas personalizadas para Giovanna e outros médicos e estudantes com deficiência. A notícia do encerramento da produção de suprimentos médicos pela fábrica gerou apreensão e mobilização. Adriana teme que a falta de luvas dificulte o trabalho de médicos como Sarah, que atua em uma UTI neonatal, lidando com bebês prematuros em risco de vida. A busca por uma nova solução continua, com a esperança de que a união e a sensibilização em torno da causa garantam o acesso a luvas adequadas para todos os profissionais de saúde com deficiência.
Adriana não descarta a possibilidade de recorrer a fabricantes estrangeiros, como fez no passado, quando encontrou um médico americano com uma mão semelhante à de Giovanna que usava luvas adaptadas importadas da Malásia. A jornalista lançou o livro ‘Sou a Mãe Dela’ e um podcast com o mesmo nome, onde compartilha a história de Giovanna e entrevista pessoas que foram importantes em sua jornada. Adriana finaliza com a esperança de que Giovanna e outros médicos com deficiência continuem a ter a oportunidade de exercer sua profissão com dignidade e respeito.




