Em Varanasi, na Índia, estabelecimentos como o Mukti Bhawan oferecem um espaço para que as pessoas passem seus últimos dias em preparação para a morte, buscando a libertação espiritual através da cremação e das práticas hindus.

Varanasi, cidade banhada pelas águas do sagrado Rio Ganges, emerge como um destino singular na Índia, onde a morte não é vista com temor, mas como uma etapa transcendente na jornada da alma. Em meio à crescente banalização da morte observada globalmente, especialmente durante períodos de crise sanitária, Varanasi mantém sua peculiar tradição de acolher aqueles que buscam um último refúgio para se despedir da vida.
Em contraste com as cenas dolorosas de corpos abandonados e sistemas de saúde sobrecarregados, a prática da cremação em Varanasi ressoa com a profunda crença hindu na purificação e libertação. A cremação, seguida pelo lançamento das cinzas no Ganges, é considerada um meio de romper o ciclo de reencarnações e alcançar o moksha, o estado de iluminação espiritual.
No coração desta cidade sagrada, ergue-se o Mukti Bhawan, um estabelecimento sui generis que se assemelha a um ‘hotel da morte’. Longe de ser um local de morbidez, o Mukti Bhawan oferece um ambiente sereno e propício para a introspecção, onde os hóspedes podem se preparar para a transição final. Este edifício de dois andares, construído no início do século 20, acolhe pessoas mais velhas, capazes de subir as escadas por conta própria, em quartos simples equipados com cama, cadeira e imagens de divindades hindus.
A estadia no Mukti Bhawan é breve, geralmente de duas semanas, durante as quais os hóspedes desfrutam de refeições vegetarianas e mergulham na atmosfera meditativa do local. Famílias frequentemente acompanham seus entes queridos, proporcionando apoio e conforto durante este período crucial. O fenômeno dos ‘hotéis da morte’ não é recente; pesquisadores documentaram estabelecimentos semelhantes desde a década de 1970, dedicados a proporcionar uma ‘boa morte’, considerada tão importante quanto uma ‘boa vida’.
Outros estabelecimentos similares oferecem serviços adicionais, como café da manhã, chá da tarde, assistência médica e enfermagem, sustentados por doações. Esses refúgios oferecem um espaço onde os hóspedes podem se preparar para deixar este mundo em paz e com dignidade. No cenário único de Varanasi, emerge a figura do ‘rei da cremação’, um cargo tradicionalmente ocupado por membros da comunidade doma, considerada ‘intocável’ devido ao seu envolvimento com o manejo de cadáveres.
Om Chaudhary, um jovem de 20 anos, herdou o cargo de seu pai e é responsável por manter a principal pira acesa no Manikarnika Ghat, o maior centro de cremação da cidade. O Manikarnika Ghat, um dos mais de 80 ghats (escadarias que levam ao Ganges) em Varanasi, recebe até 150 cadáveres por dia. As famílias enlutadas carregam os corpos em macas de bambu envoltas em tecidos coloridos, entoando orações fúnebres enquanto se dirigem à pira crematória. O custo da cremação varia, dependendo da qualidade da madeira e da decoração, mas o pagamento ao ‘rei da cremação’ permanece fixo em 500 rúpias (cerca de R$ 30) por funeral.
Apesar da discriminação histórica enfrentada pelos doma, a família de Chaudhary recebeu reconhecimento pelos serviços prestados à sociedade, com seu pai sendo homenageado postumamente. Chaudhary, no cargo desde os 15 anos, deve ter um longo mandato como ‘rei da cremação’, testemunhando a transição entre a vida e a morte na capital sagrada da Índia. Em Varanasi, a morte assume um novo significado, integrando-se ao ciclo da vida e proporcionando uma oportunidade para a libertação espiritual. Os ‘hotéis da morte’ como o Mukti Bhawan oferecem um espaço único para a reflexão e a preparação, permitindo que os indivíduos enfrentem a morte com serenidade e dignidade.




